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choro que cria tempo
é chorinho samba
te faz poesia na terra
e estrela no céu

música que cria tempo
é som no mundo
faz da vida poesia na terra
e estrela no céu

caminhei 7 quilómetros
praticamente uma linha reta
foi uma caminhada de mais
proximidade com outra vida
dos homens

casais brigando. mãe e
filha tentando se entender
o mendigo arrastando a vida
a madame com o carro quebrado
os muito trabalhadores urbanos

colegas e amigos
esses sempre em grande fase
caminhando rindo, conversando
se esquecendo do chato
do difícil e do cansaço

caminhei 7 quilómetros
com calças jeans e sapa-tenis
os farois abrindo na hora certa
os onibus passando lotados
os taxis com seus taxímetros ligados

sem carro. sem dinheiro no bolso.
contra o sol, a favor do vento
e as ameaças do olhar doido
do drogado. pelado de baixo de
roupas. só a vida pra me tirarem.

o senhor bem vestido. elegante.
mãos finas de pianista. pasta na outra.
chapéu. ombros estreitos. cabelos
ralos na nuca. o tecido grosso
do terno, não cheirava a guardado.

cruzei o vale sobre uma ponte
junto com o tiozinho na bicicleta
e a filha na garupa. de la a cidade
em construção. o transito. um sentido
apenas. o trabalho e o bairro

aos poucos fui me aproximando
da vida dos meus olhos, dos anos
dos 30 anos no bairro. da casa
do amigo que virou lar de velhos.
da floricultura. da padaria. da agua.

(…)

arraigado não
minhas raizes longas caminham
de onde vim pra onde estou
aquí, sempre, lutando
contra as ideias e sentimentos arraigados
enraizado é o pé de feijão que toca o céu
arraigados eram os valores do corrupto-homofobico
destas raízes, molhadas em lagrimas, suor e alegrias
fei-se esta pele que agora é parte da paisagem
da vida dos homens, das coisas e do universo
deixando que a agressividade esvoace
como folha seca de outono
e a seiva que não para, da terra, do meu lugar,
de alimentar o corpo que dança, que toca
e faz de raíz alimento
de arraigado, passado